A consolidação da identidade visual, social e cultural do Brasil no século XX encontra, na figura de Candido Portinari, o seu mais eloquente artífice. Nascido na fazenda de café Santa Rosa, nos arredores de Brodowski, em 29 de dezembro de 1903, Candido era filho de Baptista Portinari e Dominga Torquato, imigrantes italianos vindos da mesma região do Vêneto — o pai, de Chiampo; a mãe, de Bassano. Curiosamente, o registro civil traz a data de 30 de dezembro: seu pai atrasou-se em declarar o nascimento e, para escapar da multa, adiantou o dia. A infância na roça foi marcada pelos medos típicos do interior, pelos folguedos infantis — pipas, balões de São João, brincadeiras de gangorra — e sobretudo pela presença descomunal da avó materna, Maria Torquato, uma mulher que saía em sua carroça puxada a cavalo para vender mangas em São Paulo e que o pintor, já adulto, recordava com fascínio quase mitológico.
A Metrópole, a Fome e a Ética do Ofício
Em 1918, aos quatorze anos, Portinari partiu para o Rio de Janeiro. Os primeiros anos na capital foram de severíssimas privações: para se manter enquanto estudava desenho no Liceu de Artes e Ofícios e depois na Escola Nacional de Belas Artes, chegou a dormir no banheiro de uma pensão na rua Marquesa dos Santos, até que a dona da casa lhe cedesse um pedaço isolado do corredor como quarto — onde permaneceu até embarcar para Paris, em 1928. Comia uma vez ao dia e guardava no bolso as cascas de banana cobradas à parte na sobremesa. Essa fome, contada por ele mesmo sem drama, forjou sua recusa em romantizar a pobreza e consolidou uma ética de trabalho quase monástica: Portinari se descrevia como "pé de boi", um estudante metódico obcecado pelo domínio da técnica clássica antes de qualquer ousadia moderna.
A Epifania em Paris e o Brasil Elevado à Tela
Ao vencer o Prêmio de Viagem à Europa da Escola Nacional de Belas Artes em 1928, instalou-se em Paris por dois anos, período que definiu como de puro aprendizado contemplativo — visitava o Louvre pela manhã e o Luxemburgo à tarde, discutia pintura nos cafés da rive gauche e, segundo ele próprio, pintou muito pouco: apenas três pequenas naturezas-mortas. Foi também em Paris que conheceu a uruguaia Maria Martinelli, com quem se casaria. Ao regressar ao Brasil em 1931, porém, a "hibernação artística" explodiu em produção febril. Anos depois, o quadro "Café" (1935) recebeu a segunda menção honrosa da Exposição Internacional de Pintura do Instituto Carnegie, o primeiro reconhecimento internacional de peso na carreira do pintor e um marco na consagração do "Brasil dos pés enraizados na terra" que passaria a definir sua obra.
A Consciência Trágica, a Política e a ONU
Na década de 1940, tocado pelo avanço do fascismo, pelas secas nordestinas e por um agudo senso de justiça social, Portinari radicalizou sua pintura de crítica ao Brasil — culminando na dilacerante Série Retirantes (1944). Nesses anos, chegou a se candidatar a cargos eletivos: primeiro a deputado, sem sucesso relevante, e depois, em 1946-47, a senador pela chapa que uniu o Partido Comunista Brasileiro e o Partido Social Progressista — candidatura que quase venceu e que o próprio pintor recordava com certa angústia, temendo que a política lhe roubasse o tempo de pintar. Não foi eleito, e jamais voltou a cogitar a vida pública. Já senhor de sua técnica, voltou-se então à síntese histórica: pintou "A Primeira Missa no Brasil" (1948) e o "Tiradentes" (1948-49), e presenteou a recém-fundada Organização das Nações Unidas com os monumentais painéis "Guerra" e "Paz", de 14 por 10 metros, ainda em elaboração quando concedeu a Antonio Callado as entrevistas que originaram sua primeira biografia. Para representar a paz mundial, optou não por símbolos diplomáticos, mas pelos meninos de Brodowski soltando pipa e brincando em gangorras — cena que, dizia, sempre pintava "para botá-los no ar, feito anjos".
O Sacrifício Físico e o Legado Eterno
A intimidade diária com as tintas cobrou seu preço: Portinari foi progressivamente intoxicado por metais pesados presentes nos pigmentos (saturnismo). Mesmo proibido de pintar após o primeiro envenenamento, insistiu no ofício usando longas luvas de borracha. Morreu no Rio de Janeiro em 6 de fevereiro de 1962, aos 58 anos; seu corpo foi velado no Palácio Gustavo Capanema — o antigo Ministério da Educação, cujos afrescos ele próprio pintara nos anos 1930 — e o cortejo fúnebre reuniu, lado a lado junto ao túmulo no Cemitério São João Batista, figuras tão distintas quanto Carlos Lacerda e Luiz Carlos Prestes. Seu acervo, hoje estimado em cerca de cinco mil obras, é preservado e catalogado pelo Projeto Portinari, fundado em 2 de abril de 1979 pelo matemático João Candido Portinari, filho do pintor, com apoio inicial da FINEP e da PUC-Rio — garantindo que o menino nascido "num pé de café" em Brodowski permaneça, como escreveria o próprio Callado décadas depois, uma das mais vívidas consciências visuais do Brasil.
- CALLADO, Antonio. Retrato de Portinari. 3ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003 (1ª ed. MAM-RJ, 1956; 2ª ed. Paz & Terra, 1978) — depoimentos do próprio Portinari sobre infância, Rio de Janeiro, Paris, política e obras tardias.
- Projeto Portinari. Apresentação e Equipe. Disponível em: www.portinari.org.br. Acesso em 2026.
- Jornal da PUC-Rio. O tesouro de Portinari, 2019 — fundação e acervo do Projeto Portinari.
- Revista Educação Pública/Fundação Cecierj. Projeto Portinari: uma reconciliação.