História e Cultura

Os Notáveis

Conheça as mentes brilhantes, artistas, lideranças e personalidades de destaque que tiveram sua origem ou construíram parte da sua história aqui na cidade.

Candido Portinari
Artes Plásticas & Cultura

Candido Portinari (1903 - 1962)

O maior pintor brasileiro do século XX eternizou as paisagens, os trabalhadores e as brincadeiras de infância de Brodowski em obras monumentais que redefiniram a identidade visual do Brasil.

A consolidação da identidade visual, social e cultural do Brasil no século XX encontra, na figura de Candido Portinari, o seu mais eloquente artífice. Nascido na fazenda de café Santa Rosa, nos arredores de Brodowski, em 29 de dezembro de 1903, Candido era filho de Baptista Portinari e Dominga Torquato, imigrantes italianos vindos da mesma região do Vêneto — o pai, de Chiampo; a mãe, de Bassano. Curiosamente, o registro civil traz a data de 30 de dezembro: seu pai atrasou-se em declarar o nascimento e, para escapar da multa, adiantou o dia. A infância na roça foi marcada pelos medos típicos do interior, pelos folguedos infantis — pipas, balões de São João, brincadeiras de gangorra — e sobretudo pela presença descomunal da avó materna, Maria Torquato, uma mulher que saía em sua carroça puxada a cavalo para vender mangas em São Paulo e que o pintor, já adulto, recordava com fascínio quase mitológico.

A Metrópole, a Fome e a Ética do Ofício

Em 1918, aos quatorze anos, Portinari partiu para o Rio de Janeiro. Os primeiros anos na capital foram de severíssimas privações: para se manter enquanto estudava desenho no Liceu de Artes e Ofícios e depois na Escola Nacional de Belas Artes, chegou a dormir no banheiro de uma pensão na rua Marquesa dos Santos, até que a dona da casa lhe cedesse um pedaço isolado do corredor como quarto — onde permaneceu até embarcar para Paris, em 1928. Comia uma vez ao dia e guardava no bolso as cascas de banana cobradas à parte na sobremesa. Essa fome, contada por ele mesmo sem drama, forjou sua recusa em romantizar a pobreza e consolidou uma ética de trabalho quase monástica: Portinari se descrevia como "pé de boi", um estudante metódico obcecado pelo domínio da técnica clássica antes de qualquer ousadia moderna.

A Epifania em Paris e o Brasil Elevado à Tela

Ao vencer o Prêmio de Viagem à Europa da Escola Nacional de Belas Artes em 1928, instalou-se em Paris por dois anos, período que definiu como de puro aprendizado contemplativo — visitava o Louvre pela manhã e o Luxemburgo à tarde, discutia pintura nos cafés da rive gauche e, segundo ele próprio, pintou muito pouco: apenas três pequenas naturezas-mortas. Foi também em Paris que conheceu a uruguaia Maria Martinelli, com quem se casaria. Ao regressar ao Brasil em 1931, porém, a "hibernação artística" explodiu em produção febril. Anos depois, o quadro "Café" (1935) recebeu a segunda menção honrosa da Exposição Internacional de Pintura do Instituto Carnegie, o primeiro reconhecimento internacional de peso na carreira do pintor e um marco na consagração do "Brasil dos pés enraizados na terra" que passaria a definir sua obra.

A Consciência Trágica, a Política e a ONU

Na década de 1940, tocado pelo avanço do fascismo, pelas secas nordestinas e por um agudo senso de justiça social, Portinari radicalizou sua pintura de crítica ao Brasil — culminando na dilacerante Série Retirantes (1944). Nesses anos, chegou a se candidatar a cargos eletivos: primeiro a deputado, sem sucesso relevante, e depois, em 1946-47, a senador pela chapa que uniu o Partido Comunista Brasileiro e o Partido Social Progressista — candidatura que quase venceu e que o próprio pintor recordava com certa angústia, temendo que a política lhe roubasse o tempo de pintar. Não foi eleito, e jamais voltou a cogitar a vida pública. Já senhor de sua técnica, voltou-se então à síntese histórica: pintou "A Primeira Missa no Brasil" (1948) e o "Tiradentes" (1948-49), e presenteou a recém-fundada Organização das Nações Unidas com os monumentais painéis "Guerra" e "Paz", de 14 por 10 metros, ainda em elaboração quando concedeu a Antonio Callado as entrevistas que originaram sua primeira biografia. Para representar a paz mundial, optou não por símbolos diplomáticos, mas pelos meninos de Brodowski soltando pipa e brincando em gangorras — cena que, dizia, sempre pintava "para botá-los no ar, feito anjos".

O Sacrifício Físico e o Legado Eterno

A intimidade diária com as tintas cobrou seu preço: Portinari foi progressivamente intoxicado por metais pesados presentes nos pigmentos (saturnismo). Mesmo proibido de pintar após o primeiro envenenamento, insistiu no ofício usando longas luvas de borracha. Morreu no Rio de Janeiro em 6 de fevereiro de 1962, aos 58 anos; seu corpo foi velado no Palácio Gustavo Capanema — o antigo Ministério da Educação, cujos afrescos ele próprio pintara nos anos 1930 — e o cortejo fúnebre reuniu, lado a lado junto ao túmulo no Cemitério São João Batista, figuras tão distintas quanto Carlos Lacerda e Luiz Carlos Prestes. Seu acervo, hoje estimado em cerca de cinco mil obras, é preservado e catalogado pelo Projeto Portinari, fundado em 2 de abril de 1979 pelo matemático João Candido Portinari, filho do pintor, com apoio inicial da FINEP e da PUC-Rio — garantindo que o menino nascido "num pé de café" em Brodowski permaneça, como escreveria o próprio Callado décadas depois, uma das mais vívidas consciências visuais do Brasil.

Fontes
  1. CALLADO, Antonio. Retrato de Portinari. 3ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003 (1ª ed. MAM-RJ, 1956; 2ª ed. Paz & Terra, 1978) — depoimentos do próprio Portinari sobre infância, Rio de Janeiro, Paris, política e obras tardias.
  2. Projeto Portinari. Apresentação e Equipe. Disponível em: www.portinari.org.br. Acesso em 2026.
  3. Jornal da PUC-Rio. O tesouro de Portinari, 2019 — fundação e acervo do Projeto Portinari.
  4. Revista Educação Pública/Fundação Cecierj. Projeto Portinari: uma reconciliação.
Saulo Ramos
Direito, Estado & Literatura

Saulo Ramos (1929 - 2013)

Um dos mais proeminentes pensadores do Direito no Brasil contemporâneo. Atuou como Ministro da Justiça e deixou marcas indeléveis na construção da Nova República e na literatura de não ficção nacional.

Nascido em Brodowski a 8 de junho de 1929, José Saulo Pereira Ramos revelou sua vocação literária antes mesmo da jurídica: ainda jovem, escrevendo sobre a lida na lavoura de café, reuniu seus versos no livro "Café — Poesia da Terra e das Enxadas". Os poemas chegaram às mãos do consagrado Guilherme de Almeida, que os prefaciou, abrindo as portas para que o jovem poeta se aproximasse do renomado advogado Vicente Rao — em cujo escritório viria a construir os alicerces de sua carreira jurídica.

A Profecia de Portinari

Por ocasião do lançamento do livro, em 1953, o jovem Saulo teve o rosto desenhado a crayon por Candido Portinari. O mestre, impressionado com o brilho intelectual daquele rapaz de Brodowski, acrescentou ao retrato uma dedicatória que se tornaria célebre na cidade: "Para Saulo, que honrará nossa Brodowski." A frase, hoje lembrada em homenagens e na Semana Cultural que leva seu nome, revelou-se profética.

No Epicentro da Política Nacional

Com fortes ligações à praça cafeeira — atuou como assessor da política do café durante o governo Jânio Quadros, chegando a influenciar indicações na presidência do então Instituto Brasileiro do Café —, Saulo Ramos construiu ao longo de décadas uma sólida carreira na advocacia paulista, que o aproximou da elite política e jurídica do país. O ápice de sua trajetória pública veio na transição democrática conduzida pelo presidente José Sarney: foi Consultor-Geral da República (1986-1989) e, em seguida, Ministro da Justiça do Brasil (1989-1990), período em que ajudou a implementar as bases normativas da Constituição de 1988 recém-promulgada — embora não poupasse críticas a ela, chamando de "jabuticabas jurídicas" certas normas garantistas que, a seu ver, acabavam por facilitar a impunidade.

O Memorialista e o "Código da Vida"

Décadas depois, Saulo Ramos voltaria a surpreender o público leitor com o monumental "O Código da Vida" (2007), best-seller que mesclava memórias, bastidores políticos do Palácio do Planalto e a narrativa de um caso pessoal que marcou sua carreira como advogado — no qual abordou, de forma pioneira no debate público brasileiro, a chamada Síndrome da Alienação Parental. A obra consolidou-o como um dos grandes memorialistas da política brasileira recente.

Ramos faleceu em 28 de abril de 2013, aos 83 anos, no interior de São Paulo, após problemas cardíacos que o levavam a hemodiálise. Permanece como símbolo de uma intelectualidade nascida no interior que, pela palavra e pela lei, alcançou o centro do poder brasileiro — sempre reivindicando, com orgulho, sua origem nas "ruas de terra" de Brodowski.

Fontes
  1. Lions Clube de Brodowski. Semana Cultural Saulo Ramos. Disponível em: www.lionsclubedebrodowski.com.br.
  2. EBC / Agência Brasil. Ex-ministro Saulo Ramos morre no interior de São Paulo, 29 abr. 2013.
  3. NASSIF, Luís. Minha guerra particular com Saulo Ramos. Jornal GGN, 2024.
  4. Editora Planeta. Saulo Ramos (página de autor). Disponível em: www.planetadelivros.com.br.
Ariovaldo Corrêa
Historiografia & Memória

Ariovaldo Corrêa (1920 - 1992)

O polímata que abdicou dos tribunais para atuar como o maior guardião da história da cidade. O seu zelo documental salvou as origens de Brodowski das brumas implacáveis do esquecimento.

O desenvolvimento civilizatório de uma região não se mede apenas pela grandeza de sua economia ou pelo poder político de seus cidadãos, mas fundamentalmente por sua capacidade de reter, analisar e transmitir o seu passado. Nesse pilar sagrado da produção de memória, Ariovaldo Corrêa (nascido em Brodowski em 13 de fevereiro de 1920) ergue-se como um dos grandes cronistas do interior paulista.

A Erudição a Serviço da Terra

Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Bauru em 1957, mas sua verdadeira vocação foi o registro jornalístico e histórico. Fixando-se em Mirassol, onde presidiu o Rotary Club local em 1958 e integrou o conselho da revista Brasil-Rotário entre 1962 e 1965, dedicou décadas à pesquisa documental. Tornou-se membro da União Brasileira de Escritores, da Academia Paulistana da História, da Associação Paulista de Imprensa e ocupou assento no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo — instituições que atestam o rigor reconhecido de seu trabalho.

O Livro Definitivo e a Defesa do "W"

O legado mais conhecido de Ariovaldo Corrêa para Brodowski é o compêndio "Brodowski: Minha Terra e Minha Gente", publicado em 1986 pela Prefeitura Municipal (Editora Pannartz). Dividida em seis partes, a obra remonta às origens do município já no século XVIII, com a passagem dos bandeirantes em busca de ouro, e percorre a história local até a chegada da estrada de ferro Mogiana e a vida social das famílias operárias — um trabalho de exumação de arquivos que evitou que essa cronologia se perdesse.

Corrêa notabilizou-se também como defensor da grafia original do nome do município — homenagem ao engenheiro polonês Alexandre (ou Aleksander) Brodowski, responsável pelo loteamento das terras —, opondo-se a propostas de aportuguesamento do topônimo para "Brodósqui".

O Reconhecimento e a Imortalidade

Sua produção historiográfica sobre Mirassol foi igualmente extensa, incluindo títulos como "Crônicas da História de Mirassol" (1963) e "Mirassol: Estruturas e Gravuras" (1983), entre outros. Após seu falecimento em 1992, o antigo Cine Theatro São Pedro de Mirassol — inaugurado em 1929 sob projeto do arquiteto Ramos de Azevedo e que funcionou como sala de cinema e teatro até 1984 — passou a abrigar a "Casa de Cultura Dr. Ariovaldo Corrêa", tombada pelo Condephaat em 2008 como patrimônio histórico do estado de São Paulo.

Coroando uma vida devotada ao registro do interior paulista, em 2020 os Correios lançaram um selo postal comemorativo ao centenário de seu nascimento — reconhecimento nacional para quem passou a vida provando que a memória é o maior patrimônio de uma civilização.

Fontes
  1. CORRÊA, Ariovaldo. Brodowski: Minha Terra e Minha Gente. São Paulo: Editora Pannartz, 1986 (Publicação da Prefeitura Municipal de Brodowski).
  2. RM Rio Preto. Ariovaldo Corrêa (perfil biográfico). Disponível em: www.rmriopreto.com.br.
  3. CONDEPHAAT. Casa de Cultura Dr. Ariovaldo Corrêa, Resolução SC-20 de 01/08/2008.
  4. Mirassol Conectada. Prefeitura de Mirassol apresenta projeto de restauração da Casa de Cultura.
Sem Fotografia
Literatura & Civismo

Joaquim Segheto Júnior (1902 - 1965)

O artífice intelectual da letra do Hino a Brodowski. De sapateiro a poliglota autodidata, deixou um legado literário de imensa profundidade filosófica e parnasiana.

No vórtice da efervescência cultural provinciana do início do século XX, ergue-se a figura idiossincrática de Joaquim Segheto Júnior. Nascido em Brodowski em 12 de dezembro de 1902, desenvolveu uma relação de profunda identificação com sua terra natal, coroando esse vínculo ao coassinar, com João Albarello, a letra do Hino Municipal de Brodowski.

De Sapateiro a Poliglota Autodidata

Sua vida profissional reflete a dicotomia de sua existência: o corpo preso ao labor manual e a mente voltada a inquietações mais amplas. Exerceu o ofício de sapateiro e, posteriormente, trabalhou como funcionário da antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Autodidata, buscou instruir-se longe dos grandes centros acadêmicos, alcançando conhecimento de italiano, espanhol, francês e latim clássico, e chegou a aprender a arte tipográfica para imprimir e publicar seus próprios poemas.

Um Perfil Solitário e Filosófico

O perfil que a memória local preserva de Segheto é o de um homem solitário, reflexivo e sensível, dedicado quase inteiramente à sua arte e mantendo uma vida celibatária. Faleceu aos 63 anos, em 7 de julho de 1965.

Obras e o Mistério de "Salvas de Prata"

Seu livro de poesias mais conhecido, publicado ainda em vida, tem o título "A Esfinge" — uma coletânea bilíngue, em português e francês, cujo título já sugere o tom enigmático de sua obra.

Consta ainda, na tradição memorialista local, que Segheto teria escrito em sua maturidade um romance completo intitulado "Salvas de Prata", permanecendo inédito e confiado à guarda de um advogado brodowskiano, o Dr. Felipe Geraldo Scozzafave, cuja família preservaria o manuscrito. Por se tratar de obra não publicada e não catalogada em acervos públicos, esse relato chega até nós por transmissão oral e memorialística, e vale registrá-lo como tal — um convite a que documentos e testemunhos adicionais sobre a vida de Segheto continuem sendo buscados e preservados.

Fontes
  1. Letras.mus.br. Hino de Brodowski – SP. Composição atribuída a João Albarello e Joaquim Seghetto Jr.
  2. Wikisource. Hino do município de Brodowski.
  3. Tradição memorialista e registros municipais de Brodowski (fonte oral/local, carente de documentação primária adicional).