Cel. Lúcio Fagundes: o homem que fundou Brodowski
Coronel Lúcio Enéas de Melo Fagundes, o fundador de Brodowski.
Toda cidade tem uma origem — mas poucas têm um fundador tão nítido quanto Brodowski. Ariovaldo Corrêa, o historiador da cidade, foi categórico: Brodowski não nasceu espontaneamente, ao redor de uma capela, como a maioria das cidades paulistas. Nasceu de uma decisão. E a decisão foi de um homem: o coronel Lúcio Enéas de Melo Fagundes.
A fazenda cortada pelos trilhos
Procedente de São José dos Campos, o cel. Lúcio adquiriu a Fazenda Belo Monte em 1887 — a escritura de compra foi registrada em 6 de junho daquele ano no Cartório de Batatais. Poucos meses antes, em outubro de 1886, os trilhos da Companhia Mogiana haviam chegado a Batatais, numa inauguração que contou com a presença do próprio Imperador D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina. A ferrovia, seguindo para Franca, passou a cortar as terras do coronel.
Por volta de 1892, ele teve a ideia que mudaria tudo: doar à Mogiana a área necessária para a construção de uma estação dentro de sua fazenda. Foi apoiado pelos irmãos Domiciano, Francisco e Luiz, fazendeiros vizinhos, e por outros proprietários da região, entre eles o cap. Américo José Ferreira e o cel. José Aleixo da Silva Passos — todos interessados em ter, à porta de casa, o trem para escoar o café.
Uma escritura de próprio punho
A doação foi formalizada num documento singelo, escrito pelo próprio coronel, datado de Batatais, 15 de janeiro de 1893. Nele, Lúcio Fagundes e sua mulher, Eulália Amélia Vieira Fagundes, cediam à Companhia Mogiana o terreno junto ao quilômetro 351 da linha, para nele se edificarem estação, armazém e desvios. O valor declarado da doação: duzentos mil-réis. A escritura foi registrada em 1º de março de 1893 e, cerca de um ano e meio depois, em 5 de setembro de 1894, a estação abria ao tráfego — a data que a historiografia local adota como fundação da cidade. Em homenagem ao inspetor-geral da ferrovia, o engenheiro polonês que apadrinhou o pedido, a estação recebeu o nome de Engenheiro Brodowski.
O construtor da cidade
O coronel não parou na doação. Ergueu, a cem metros da estação, a primeira casa do povoado — que lhe serviu de residência e cujo forro da sala, por décadas, ainda exibia seu nome escrito por extenso. A casa serviu de diretriz para o alinhamento da primeira rua, a Floriano Peixoto. Ao lotear suas terras, reservou ao patrimônio público as áreas que viriam a ser a Praça Martim Moreira e a antiga Praça Tiradentes. Em 1897, edificou o primeiro templo da localidade, a Capela de Santa Cecília, ainda existente na rua General Carneiro. Em 1902, fundou a primeira agremiação social da cidade, o Clube Literário e Recreativo Santa Cecília. E há até quem lhe atribua um feito esportivo: segundo a tradição familiar dos Silva Passos, foi o cel. Lúcio quem trouxe de São Paulo, numa de suas viagens, a primeira bola de futebol com câmara de ar que a molecada de Brodowski conheceu.
"Vila Fagundes"?
O prestígio do fundador era tamanho que, em 4 de janeiro de 1901, a Câmara Municipal de Batatais — à qual o povoado então pertencia — aprovou projeto do vereador Victor Aurélio do Carmo trocando o nome de Brodowski por "Vila Fagundes", em homenagem explícita ao coronel. A mudança não vingou, mas ficou registrada em ata como prova do reconhecimento dos contemporâneos.
Em 1908, o cel. Lúcio mudou-se da cidade que criara. Quando Brodowski se emancipou, a primeira Câmara Municipal, em sua primeira sessão ordinária, fez questão de enviar-lhe, em 26 de janeiro de 1914, uma moção de congratulações que o tratava, com todas as letras, como o fundador desta terra.
O dia em que o comércio fechou as portas
O coronel faleceu em 16 de julho de 1922, em Santa Cruz do Rio Pardo. Quando a notícia chegou a Brodowski, dias depois, o efeito foi imediato: o comércio cerrou as portas e a bandeira foi hasteada na Câmara Municipal e nas repartições públicas, conforme noticiou "A Gazeta de Brodowski" na edição de 23 de julho de 1922. O prefeito telegrafou condolências à família em nome da cidade.
Um século depois, a conclusão de Ariovaldo Corrêa permanece de pé: Brodowski existe porque um fazendeiro decidiu, com papel, pena e generosidade, que ali deveria parar um trem.
Fontes
- CORRÊA, Ariovaldo. Brodowski — Minha Terra e Minha Gente. Brodowski: Prefeitura Municipal / Ed. Pannartz, 1986. 1ª parte, capítulos II, III e IV; 4ª parte, cap. III (futebol).
- Escrituras registradas no Cartório de Registro de Imóveis de Batatais: compra da Fazenda Belo Monte (nº 125, 6.6.1887) e doação à Cia. Mogiana (nº 865, 1.3.1893), transcritas por Corrêa.
- "A Gazeta de Brodowski", edição de 23.7.1922 ("Morreu o fundador da cidade"), apud Corrêa.
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